domingo, 26 de janeiro de 2014

Carências

Todos nós sentimos falta de algo ou de alguém. Necessitamos de tempo, de dinheiro, de trabalho, de férias, de apetite, de vontade, de amigos, mas é sem dúvida na família que o nosso coração mais chora. É indiscutivelmente aqui que a nossa garganta fica demasiado apertada, tornando o ar que respiramos insuficiente para a nossa existência. Mas, como contrariar todas estas necessidades? Como obter um pouco de tudo isto sem prejuízo para o nosso bem – estar? Será um processo simples? Acredito que sim. É necessário dar, dar de nós, distribuir um pouco do nosso precioso tempo, prescindir de algo em prol do outro, temos que semear. Semear palavras, evidenciar atitudes, difundir sentimentos, espalhar o que de melhor existe nós. Descentrarmo-nos do nosso singular umbigo será certamente o início de uma colheita promissora, mesmo que a semente não consolide de imediato. Se não compartilharmos, se não dividirmos com os demais, o retorno será nulo e por vezes até acusador. É frequente assistirmos a inúmeras cobranças, somos seres insatisfeitos, mas se estivermos atentos, verificámos que onde a semente mais careceu foi em prejuízo de sentimentos e emoções. 
Emprestar um pouco do nosso tempo a ouvir testemunhos dos nossos avós ou de pessoas mais velhas é de fato enriquecedor e caloroso, sem esquecer que nestes momentos apadrinhámos uma imensa necessidade de afirmação. São histórias simples, mas com uma enorme dose de carinho e satisfação por poder partilhar. As vivências e passagens anteriores servem para aprender ou corrigir algo. Escutar, educar, transmitir e partilhar conhecimentos, são muitas vezes relatos de memórias que ajudam a compreender e a compreendermo-nos, tornando a vida mais simples e a inexistência menos presente.
À falência de emoções e vontades eu denomino de carência de viver. Uma vida sem objetivos ou ambições facilmente culmina na maior pobreza de existência.

domingo, 21 de abril de 2013

O meu refúgio

É no mar que me acalmo, é ali que a minha mente se desmaia das apreensões e de pensamentos tumultuosos e confusos. A imensidão do oceano transmite-me a existência de um além para lá do meu pensar, do meu desassossego, da minha angústia e ansiedade. É olhando o mar que procuro energias para abrandar de modo pacífico e controlado a rapidez dos meus entendimentos, pois de tão excessivos e penosos conseguem desgastar toda a minha capacidade de discernimento ou de razão. Por vezes, este estado de alma é  atropelado por turbilhões de pensamentos que me afastam da paz que necessito.
A brisa que sopra e que me aquieta de tão leve e fresca, o cheiro a sal e algas tempera as minhas ideias desengraçadas e sem teor, o som ritmado e único que provém das ondas a dispersar na areia é por demais calmante e descontraído, o reflexo da lua nas águas tranquilas nas noites mais quentes e amenas é panorama de tamanha beleza que me amorna o olhar e me brinda com uma sublime visão de perfeição, e o por do sol? Encantador, divinal.
 Sereno, agitado, ondas fortes, águas calmas e pacíficas,  de cor cinzenta azulada ou verde, é no mar que me abrigo, é para lá que vou quando preciso de paz interior, quando careço de raciocínio claro e sadio, quando a mente se esvazia de ideias e estas parecem não ter sentido, quando preciso de determinação e muita coragem para enfrentar as vicissitudes da vida, é sem dúvida no mar que me amparo e me descubro.
É ao mar que conduzo todo o meu pensar, os meus raciocínios e dele obtenho um gigantesco sopro de vida, de quietude. A bonança reina novamente nos meus pensamentos e desta vez com a clareza fundamental para dar continuidade ao momento e adaptar-me às circunstâncias. As minhas recordações, lembranças e ideias adquirem um novo ânimo. Fortalecida, renovada e completamente refeita das incertezas e angústias, a minha mente está límpida e repleta de paz. É no mar que me encontro.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

QB

Pois é, sobre estas duas inscrições podemos desenvolver uma grande conversa e perceber o poder destas letras em determinar o seu fim, definir o tempo e até o seu conteúdo. Se a prosa é muito longa ,ultrapassa de imediato o famoso e rígido quanto basta (qb), se o teor é inconveniente ou despropositado, rapidamente nos confrontamos com o qb, quando pretendemos normalizar ou estagnar um assunto logo intervém o qb, mas é na culinária que adquirem uma enorme utilidade. qb para aqui, qb para acolá e todos sabemos exatamente do que se trata, nem mais, nem menos, é o instante e a porção real no lugar e momento exato. Visíveis em qualquer escrito, não carecem de tradução, são por demais conhecidas e não suscitam qualquer dúvida, é somente quanto baste (qb). Ao que parece o único senão é mesmo em contexto ofensivo. O qb nos insultos é sempre por excesso e mesmo assim não nos permite saber o grau, a medida.
 
Como poderemos quantificar quão a intensidade mencionada nestas afirmações?
 “ És parvo qb, És ignorante qb, És estúpido qb, És teimoso quanto baste.”
Temos que ter a verdadeira noção do qb em tudo, mas é sem dúvida na linguagem, nos comportamentos, na forma de ser e principalmente de estar que a sua importância determina o indivíduo. Não ter a perceção do qb implica insanidade mental e social.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Passos

São milhares os passos efetuados ao longo deste trajeto e quem sabe ainda outros tantos para andar no decorrer da nossa existência. No começo, os passos são pequenos, receosos, inseguros, necessitamos de ajuda, de um guia que nos indique o melhor caminho, aquele que se apresenta mais livre de obstáculos, mais reto e sem variações. Depois, com o tempo aventurámo-nos a ultrapassar algumas barreias, com a aprendizagem e habilidade vamos adquirindo confiança e atrevemo-nos a passos maiores. A parti daí a facilidade com que superamos e ultrapassamos os impedimentos é cada vez mais clara e como efeito os passos tornam-se cada vez maiores e com uma firmeza que nos possibilita uma grande marcha, quase corrida.
Estes passos: uns pequenos e vagarosos, outros mais longos e determinados, outros ainda muito trémulos e inconstantes, foram e são passos fundamentais para a estruturação desta marcha ou caminhada, mas, no decorrer desta jornada continuam a ser vários os atalhos, descuidos e encontrões que nos surgem e nos dificultam o andamento, a passada. Estes deslizes ocorrem quando antecipadamente considerámos seguros os passos efetuados e com os vários atalhos pressupõem-se chegadas mais rápidas e com resultados positivos, mesmo que os passos a efetuar sejam mais difíceis, frágeis e com impulsos vários. Estes atalhos que com maior ou menor frequência nos confrontamos nos caminhos que a vida nos mostra, são eles muitas vezes sinónimo de oportunidade, de acesso fácil, de fuga para chegar em primeiro, ou na grande maioria das vezes, não.
Nesta caminhada os encontrões são também vários e diversos, basta desviar um pouco o olhar para outros horizontes, para outra grandeza que de imediato somos ultrapassados sem a menor dificuldade. Capacitados e determinados em concluir o grandioso percurso até à meta vamos prosseguindo a marcha, uns mais vagarosos, outros mais rápidos, mas sempre com a convicção de sermos os pioneiros.  Uma vez atingível, é com enorme espanto que constatamos que aquela meta outrora tão distante revelou-se demasiado atingível e excessivamente fácil de alcançar.
 Poderemos pensar! Será que dispensamos demasiado cedo o guia, o protetor e até o trilho que anteriormente nos limitava? Será que necessitávamos de tropeçar mais vezes e até cair? Será que os nossos passos cederam ao percorrer o atalho que preferimos? Será que ficamos demasiado deslumbrados com a caminhada dos outros e esquecemo-nos de andar? Foram certamente demais as passadas e em direções distintas que somente mais tarde conheceremos o seu desfecho e deste modo entender se os nossos passos foram consistentes e sólidos ou ao contrário, frágeis e desamparados. Antes, quando os nossos passos eram pequenos e hesitantes, a nossa vontade de conseguir, de obter algo, era um entusiasmo e orgulho no triunfo no sucesso, agora e perante a facilidade de atingir o objetivo, somos atingidos pela nostalgia, pela saudade dos entraves.
Relativamente a outros PAÇOS, aí presenciamos quem os use para se manter inatingível. Sem passadas e sob trilhos altamente arriscados conseguiram fixar-se e permanecer intocáveis, promovem a corrida mas marcham a um ritmo muito vagaroso, lento e derrapam ao cabo de um par de anos, com milhares de passos concluídos sim, mas ineficazes e com um rasto de incompetência.
Não podendo esquecer a realidade e alusivo ao nosso querido PASSOS, analisamos que são milhares os passos sem direção. Aqui deparamo-nos com uma gigantesca montanha de pegadas obscuras e confusas, passos e passadas que por muito que caminhe, marche ou corra, nunca chegará a ultrapassar o colossal montão de emaranhados trilhos e caminhos que tão rapidamente criou. Perante tanta ineficácia e incapacidade decide-se aprontar, adiando a marcha e num andamento cada vez mais desastroso, reclama a sua incompetência contra quem apenas desejou gatinhar.
 O alcance de metas é para muitos objetivo fácil, traduz-se em pouquíssimos passos, mas para quem ousa legar que é possível realizar um grande feito, sem choques ou empurrões, tem necessariamente de se garantir com uma enorme dose de coragem e muita persistência, pois de contrário o nosso legado depressa se apaga e desaparece na história.

domingo, 25 de novembro de 2012

(IN) Comunicação

A falar é que nos entendemos, dizem os mais sábios, mas, comunicar através de palavras não é propriamente o único meio para conhecer todo o universo da comunicação. Pronunciar palavras é apenas um dos meios que nos permite dialogar de uma forma acessível para melhor nos compreendermos, mas na comunicação deve existir, partilha, interação, pois só assim podemos nos conhecer e melhor conhecer os outros. A troca de ideias, sentimentos ou experiências faz-nos engrandecer, torna-nos responsáveis e sensíveis. Com as novas tecnologias surgiu a oportunidade de comunicar com tudo e com todos, estar informados e atualizados, ler, questionar e obter respostas, compreender novas culturas e diferentes modos de vida sem sair de casa. Deste modo, podemos tomar conhecimento e participar em tudo o que acontece, e de modo ativo e com a rapidez de um simples clique conhecemos todos, desde o mais comum dos mortais até à figura mais mediática, incluindo as nossas figuras de eleição. É de facto um outro mundo esta era das tecnologias, de tal modo absorvente e atraente que excede qualquer tentativa de adiar ou sequer interromper. Ficámos paralisados perante tanta eficiência e rapidez que………… nos esquecemos de falar, de comunicar. Podemos certamente afirmar, que nos é mais familiar e contemos mais saberes sobre o quê e quem está do outro lado do mundo, do que propriamente com as pessoas que vivem na mesma rua ou moram connosco. Esta atual realidade, esta necessidade inerente às tecnologias, traduz-se numa constante e inevitável escassez de diálogo, impõem-se novos modos de estar, de trabalhar, de estudo. A frequência com que trazemos o escritório para casa, rapidamente se transforma em rotina. A competitividade, objetivos a atingir, salvaguardar o emprego, quando este se apresenta cada vez mais precário e escasso, são de facto motivos suficientes que justificam o trabalho extra. Na escola, os trabalhos em computador e com recurso há Internet, são cada vez mais requisitados; obter informação é mais rápido e acessível através do Google do que consultar um livro ou manual. Para ler a nossa obra preferida, escusa a biblioteca ou estante até então repleta de livros, ordenados e selecionados, basta mais um clique.
É este o mundo moderno e fascinante das tecnologias, mas o qb é fundamental para manter o equilíbrio e saúde social necessários para uma prática e relacionamento comunicativo. Atualmente verificamos algumas deficiências em perceber quando a comunicação começa a ficar incomunicável e como em tudo existe o senão, senão e com brincadeira e uma pequena dose de ironia aqui vai.
Na nova era das tecnologias, pode perfeitamente fazer com que o seu marido ou filho desça para jantar sem utilizar a sua voz para os chamar, basta simplesmente enviar um email do seu PC para o do seu marido ou filho, que está no quarto. Não…., não é no quarto andar! É mesmo no quarto de dormir; da assoalhada ao lado, mas com toda a certeza ele irá responder de imediato, quer seja através do Chat, Messenger, Skype ou Facebook, pois são estas algumas das novas ferramentas mais utilizadas para comunicar.
Estar atualizado é exigível, quer a nível pessoal, quer em ambiente de trabalho, mas atenção, porque o nosso colega, vizinho, amigo ou familiar, pode rapidamente esquecer a nossa voz e não a reconhecer quando ouvir o nosso apelo, pode deixar de identificar aquele nosso olhar que anteriormente nos denunciava e até desconsiderar o nosso silêncio de oiro.
As pessoas são e valem muito mais do que umas quantas teclas, vamos partilhar ideias, experiencias, vamos por em comum, em suma, vamos comunicar.

domingo, 7 de outubro de 2012

Arrumar/Desarrumar

Desde muito cedo que nos ensinam a arrumar; quer seja os nossos objetos ou pertences, quer as ideias ou pensamentos. Primeiro em casa instituindo prioridades. Sentimentos como: amor, carinho, amizade, partilha, companheirismo, respeito mútuo; atitudes onde o saber ser e estar é irrepreensível, comportamentos adequados, civismo e disciplina, são sem dúvida os primordiais da natureza humana, são as bases fundamentais para a pirâmide que queremos construir. Jamais podemos esquecer que é em casa a nossa primeira estância na educação. Depois e continuamente na creche ou escola, com regras e rotinas que nos dirigem para uma aprendizagem e desenvolvimento saudável, com mais e melhor formação. Posteriormente no emprego ou em sociedade; o empenho, a dedicação, o profissionalismo, a concordância, a responsabilidade, os direitos e deveres, a solidariedade social, a partilha de saberes, e assim continuamente ao longo de toda a nossa vida. Deste modo, construímos uma identidade e afirmação enquanto indivíduo, o nosso desenvolvimento cognitivo, pessoal e social está repleto de ideias e valores que de modo mais ou menos organizado vamos acomodando mentalmente.
 Crescemos, degrau a degrau, com a informação perfeitamente assimilada do certo ou errado, com obrigações e necessidades demasiado conhecidas e onde dificilmente existe espaço para as diferenças, não nos é permitido desarrumar, estamos metodicamente formatados. Ora, quando nos confrontámos com divergentes conceitos e nos exigem um pensamento distinto e objetivo é claro que torna-se demasiado difícil de acomodar, pois o puzzle estava planeado e dirigido para assentar com as peças anteriormente programadas. Perante o desconhecido e com grande embaraço, sobressai a incapacidade de ação, tentamos de imediato analisar a razão, mas sem compreender o gigantesco desarrumo que nos provocaram. O incógnito é geralmente sinónimo de medo e diante as diversidades preferimos reforçar os valores anteriormente incutidos, em prol do menor distúrbio ou desordem. Assim, privámo-nos e remetermo-nos à nossa humilde e discreta compreensão, mesmo que a nossa mente cobiçasse mais.
Arrumar / desarrumar parece tarefa fácil, mas quando é necessário organizar ideias, acomodar os sonhos amontoados, compreender novas crenças, libertar preconceitos, atualizar e abraçar novos conhecimentos; a harmonia entre todos estes elementos é missão muito delicada de concretizar. É fácil fazer juízos, difícil é compartilhar. Às vezes é necessário desarrumar para mais facilmente perceber e entender as várias preferências, gostos, atitudes ou procedimentos. O mais curioso é que depois de desarrumar até compreendemos que afinal esteve muito tempo mal arrumado.
 Um armário, cheio de (gavetas) bem organizado, alinhado e cuidadosamente arrumado, com lenços, peúgas, cintos ou gravatas ,dispostos por cores e tamanhos; de inverno ou verão, disponíveis de modo que o seu manusear, a nossa rotina seja um ato mecânico, sem confusão, é o modo perfeito, mas, e se no caminho até à (gaveta) se desacertam? Será o seu desencontro causado pela sua singularidade ou simplesmente não fizeram o mesmo trajeto?
Iguais ou desiguais, devemos acolher, acomodar devidamente nas gavetas que dispomos e como verificámos é preciso um desarrumo para um arrecadar de novos saberes. Temos que deixar um espaço aberto na nossa (gaveta) para uma eventual mudança, proporcionar variantes, estar preparados para o inesperado.
Esta pequena reflexão surgiu a propósito de alguém dizer que está tudo demasiado arrumado, tudo muito certinho. É verdade, e mesmo com a consciência de que ainda existe muito espaço para compartilhar, é frequente fazermos como a tartaruga, esconder a cabeça debaixo da carapaça. Será que é para nos proteger? Constato que não e creio que o receio da exposição e vulnerabilidade a que nos sujeitámos quando as questões são pertinentes e o nosso saber nos trai com argumentos desprovidos é esta a principal causa de tal atitude.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Pedaços


A pequena brecha que persiste  e que anteriormente permitia adivinhar ou antever com clareza e evidência, agora, encontra-se demasiado gigantesca que confunde o nosso olhar medroso e descrente, impedindo-nos de a distinguir e transpor, limitando a sua compreensão, tornando-se ilegível. A visão nítida, simples e atingível que poderia ser concedida é agora embaciada por uma nuvem de pó que mora à nossa frente, transformando a porção de chão que pisamos em algo tão valioso, que em sua defesa preferimos a ignorância. Assim, a oportunidade de alcançar um grande quinhão é sobreposta pela pequena fatia que na realidade existe, e deste modo subsiste o impossível.
A nossa origem, o meio e classe social a que pertencemos e quem sabe também o nosso destino são de facto condicionantes para os nossos arrojados sonhos, tornando-os recatados e modestos. Os fracassos vividos, as amarguras ou alegrias, a esperança, essa, cada vez mais distante, o presenciar a excentricidade de alguns que se reflete em injustiça para outros, descortina (in) decisões e mostra caminhos nem sempre fáceis de percorrer.
“Ainda és um pedaço de gente”.
Este provérbio com toda a sabedoria popular caracteriza eficazmente o processo de aprendizagem para uma integração gradual e adequada que se pretende na sociedade, mas, existem também outros pedaços bem mais difíceis de moldar e adaptar. Esses pequenos pedaços, partes ou bocados desanexaram-se de um todo e onde a sua presença era complemento ativo e importante para o núcleo a que pertenciam. Igualmente verdade que estes pequenos fragmentos devidamente ajustados e integrados fazem toda a diferença quando pretendemos obter um resultado eficaz e positivo.
 A estes pequenos pedaços juntam-se outros, provenientes de vários grupos, onde se vão agregando ou encaixando, mesmo que de modo desigual e desordenado. Todos nós, passivamente e na incapacidade de construir uma comunidade mais sólida, vamos tentando-os unir, mesmo com a consciência de que os alicerces são inseguros e instáveis, mas na esperança que os seus direitos lhes sejam assistidos.
A resolução para unir estes meros pedaços depende de quem os possui, da influência, do domínio, mas e sobretudo da vontade de os aproximar, afinal, são pequenos os pedaços que nos permitem diferenciar o ser humano, no entanto são visíveis e transparentes as suas necessidades, nomeadamente quando o que se procura é a integração, justiça e igualdade. Para muitos, estes adjetivos são difíceis de alcançar, mas, continuámos a acreditar e assim resistir a um prazo que teima em manter-se demorado e vagaroso, é o viver ou sobreviver de um povo, é a nossa identidade como país.
 Para minimizar estas grandes lacunas da sociedade é necessário a intervenção dos que mantêm as maiores parcelas, dos pedaços maiores e medidas como: retidão no conceder, mais coerência nos factos, menos favoritismo e descomplicar, igualdade de oportunidades perante as mesmas capacidades e circunstâncias, partilhar e dividir de modo a que um pequeníssimo naco chegue àqueles que apenas ambicionam por migalhas. Estes são apenas alguns dos pequeníssimos retalhos que de algum modo concertam a vida daqueles que de mãos cheias de nada e coração vazio ainda acreditam no futuro.
Um simples naco de pão para alguns ou um enorme pedaço  para muitos? Ações e reações que assistimos inertes e por demais conformados. Seguimos em frente, impotentes e fracos perante uma grande desunião de pequenos ou grandes pedaços, de famílias, figuras ou rostos. Testemunhamos seguramente pedaços de nós. São pedaços de um corpo que desespera. As mãos que vemos estendidas à mercê da generosidade do próximo, os braços descaídos, o andar inseguro e sem rumo, o olhar tão frio e longínquo, são retratos cada vez mais comuns.
Pequenos na dimensão à escala geográfica, visão acanhada e estreita, pedaços de uma vida contada e descrita na sua grandeza ou numa vida (des)feita em pedaços? Estamos a ficar murchos de lágrimas; transformámo-nos em fragmentos de um corpo anteriormente inteiro, somos parte de um universo, que concebe no seu mais profundo interior, valiosíssimos pedaços.